Entrevista com o autor João Manuel Ribeiro


"A Casa do João" é uma nova revista de literatura infantil e juvenil lançada em outubro de 2017 pelo escritor João Manuel Ribeiro. A publicação é gratuita e tem periodicidade trimestral. O autor, que marcou presença em Mondim de Basto no Mês do Livro 2017, falou, sobre a mesma, com a Biblioteca Municipal de Mondim.

1 - Como surgiu a ideia da revista "A Casa do João?"
J.M.R - Lançar uma Revista de Literatura Infantil e Juvenil é um sonho que acalento há já algum tempo. Depois de uma tentativa anterior falhada, de muitas definições e indefinições, eis que, a propósito de se cumprirem este ano 10 anos sobre a publicação do meu primeiro livro para crianças, entendi que era a hora. A Casa do João – Revista de Literatura Infantil e Juvenil é um escaparate de cultura, é uma síntese noticiosa, é uma bula literária, a que pode aceder quem quiser e necessitar.

2 - Quais são os principais objetivos da revista?
J.M.R - O objetivo primeiro é o de contribuir para a formação de cidadãos informados, conscientes e participativos bem como estimular a leitura e fomentar o gosto pelos livros no público infantil. Neste contexto, A Casa do João terá um caráter informativo e abrangente e será esclarecedora e atrativa para o público, tendo os mais novos e os seus pais e educadores como público-alvo, querendo, assim, contribuir para a educação literária de todos.

3 - Sente que os mais novos estão a distanciar-se dos livros?
J.M.R - Não, de todo. Admito que estarão, porventura, a distanciar-se de algum tipo de livros, pouco emocionantes, muito complexos ou intrincados, com uma temática ultrapassada, sem paixão… A escola e os professores são, ainda, grandes (e apaixonados) motivadores da leitura por prazer (e, de quando em vez, por obrigação). Sinto que as crianças leem mais, não apenas literatura, o que, em geral, é positivo. Gostava, naturalmente, que lessem mais literatura, porque ela faz bem à mente, ao coração e a tudo…

4 - Pensa que a era digital está a acabar com o papel ou existem sensações que só são obtidas com o livro/revista em papel?
J.M.R - O digital é apenas mais uma (plata)forma ou modo de leitura. Há sensações, especificidades, que só o papel possibilita: o formato, o volume, o cheiro, etc…, são insubstituíveis. O livro em papel tem uma função peculiar e quando falamos de livros de literatura infantil e juvenil, sobretudo por causa da importância que a dimensão visual (de ilustração) tem para as crianças e que se perde (ou ofusca) no digital. Nesta “luta” entre papel e digital o que me parece verdadeiramente importante salientar é a necessidade e oportunidade de leitura, independentemente do suporte / ferramenta de leitura.

5 - O João Manuel Ribeiro participa/organiza vários encontros literários, qual a importância? Quais os objetivos principais?
J.M.R - Os eventos literários são sempre importantes porque são uma forma de disseminar a literatura e a poesia em particular. Além disso, os encontros literários permitem o encontro, a relação do leitor com o seu autor, numa relação literária relevante, nem sempre fácil.
Os objetivos são distintos conforme a especificidade do evento. Todavia, diria que, grosso modo, o objetivo fundamental comum a todas as iniciativas é o de fazer / promover a educação literária, isto é, o gosto de ler, escutar e escrever literatura.

6 - Também é poeta, a poesia está mesmo em queda? Comercialmente falando são um género menos vendido.
J.M.R - Efetivamente, a poesia tem pouca cotação na bolsa dos valores, mesmo dos valores literários. Comercialmente, a poesia é um desastre. Subsiste um preconceito generalizado (e injustificado) acerca da poesia, que tem a ver com a persistência de muitos mal-entendidos, com a convicção de incómodo com interrogação do mundo e de si mesmo que a poesia provoca, com o desafio ou matéria para viver e pensar que a poesia é. Apesar de tudo, isto tem, a meu ver, um aspeto tremendamente positivo e que reside no facto da poesia não ser domável, não se deixar aprisionar por este ou aquele sistema ou corrente. A poesia situa-se sempre no território do inabarcável, o que, obviamente, seduz uns e afasta outros. Bendita poesia!

7 - Tem vários livros recomendados pelo Plano Nacional de Leitura, o PNL veio assumir uma importância fundamental na educação?
J.MR. - Não, o PNL não assumiu nenhuma importância significativa na educação. O que o PNL fez foi, antes dos livros recomendados pelas Metas Curriculares, oferecer / propor, a modo de cânone, que pudesse, de alguma forma, contribuir para a educação literária e para o gosto de ler por prazer. Esta tarefa, inteiramente cumprida, foi relevante, mas não fundamental na educação. É necessário que tal tarefa de análise e proposta de livros se continue a fazer, mas é necessário ir mais além. O «Quadro Estratégico Plano Nacional de Leitura 2027» oferece boas pistas e ferramentas para levar por diante e a bom porto o caminho iniciado.

8 - Qual foi a obra que lhe deu mais trabalho? E a que lhe deu mais prazer de fazer?
J.M.R - A obra que mais trabalho me deu foi, pelo trabalho de investigação e pesquisa prévio e posterior, o livro O senhor Péssimo é o máximo, recentemente traduzido para castelhano e galego.
O livro que mais prazer me deu a escrever foi o Meu avô, rei de coisa pouca, pelo carácter autobiográfico do texto e por revisitar a minha infância com o meu avô.

9 - Qual é a sua opinião sobre o Acordo Ortográfico?
J.M.R - É um Acordo desnecessário. São tão poucas e irrelevantes as diferenças ortográficas que fazer um acordo para as distinguir me parece inútil. O nosso principal desacordo com os outros países de língua portuguesa não se situa ao nível da ortografia, mas ao nível semântico e aí não é possível qualquer acordo.

10 - Por fim, uma mensagem para as crianças que já conhecem o universo da "Casa do João" e que sonham escrever um livro.
J.M.R - Uma criança que queira ser escritora deve, a meu ver, atender a quatro aspetos: primeiro, deve aprender bem a língua portuguesa (escrever formalmente bem é crucial); segundo, deve ler muitos e variados livros (os livros são a melhor oficina de escrita criativa que existe; analisar o modo como estão escritos é uma aprendizagem fecunda; além disso, ler muito permite-nos identificar o estilo que queremos adotar ou, até, escolher um ainda não adotado por ninguém); terceiro, deve fazer ginástica imaginativa, escrevendo todos os tipos de texto e sobre todos os temas, pondo as personagens do avesso; finalmente, não deve ter pressa em publicar (são raros os casos de escritores que publicaram muito jovens e singraram na vida de escritores; o tempo e a maturidade ensinam-nos que publicar muito cedo não é, na maioria das vezes, a melhor opção a tomar). Dito isto: Boas Escritas e Boas Leituras!

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